Resenha: Tartarugas até lá embaixo – John Green

Tartarugas é um livro não apenas para ler e se emocionar, mas para pensar e sentir.

Quando eu falei aqui no site sobre o lançamento de Tartarugas, lembro que falei sobre o termo que nomeia o livro “Tartarugas até relação com Recursão: Uma forma de resolver um grande problema, dividindo-o em outros pequenos problemas”. E já aí eu imaginava que o livro fosse trazer a história com muitas metáforas e jogos de palavras. Mas não cheguei nem perto da profundidade metafórica da obra. Logo na primeira página, Aza, a personagem principal, trás pensamentos filosóficos sobre a vida que, muito provavelmente, você já pensou, nem que seja por um segundo.

“…mas eu estava começando a entender que a vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que queremos contar. 

A gente finque ser o autor, claro. Não tem jeito. Quando as entidades superiores fazem tocar quele sinal monótono exatamente as 12h37, você pensa agora eu decido almoçar, mas na verdade é o sinal que decide. A gente acha que é o pintor, mas é a tela.” – P. 1

Aza Holmes é uma jovem de 16 anos, apaixonada por Harold (carro que herdou de seu pai), que toma cheerios pela manhã com a mãe, que é professora de matemática na mesma escola onde estuda. É a melhor amiga da falante Daisy, que super fã de Star Wars e escritora de fanfics. Tira boas notas na escola, pensa na faculdade que irá cursar… enfim Aza seria uma adolescente completamente normal, se não fosse o Transtorno Obsessivo Compulsivo. O TOC não é aquela doença engraçada da série Monk. John Green (que sofre do problema) veio para mostrar que ela é muito mais séria do que isso. Aza não se sente no controle da sua mente. Para ela é como se houvessem outras pessoas falando e dando ordens a ela como, “você já trocou esse band-aid hoje? O machucado está infeccionado” ou “Beba álcool em gel para matar os germes”… é. É pesado. Os pensamentos de Aza são, como ela bem descreve, uma espiral e Green deixa isso bem claro, fazendo com que o leitor afunde com ela dentro dessa espiral de pensamentos que só levam até lá embaixo. E graças a maravilhosa escrita de John Green, nós vamos juntos.

“A questão da espiral é que, se a seguimos, ela nunca termina. Só vai se afunilando, infinitamente”  – P.14

Enquanto Aza tem que lidar com todas essas “Azas” dentro dela, Daisy está focada em encontrar Russel Picket. O bilionário CEO e fundador de uma controversa empresa de Engenharia. Picket desapareceu sem deixar rastros, depois que foi acusado de ter “pago propina a algumas autoridades, em troca de contratos para construção de um sistema de escoamento de esgoto mais eficiente em Indianápolis (P.64). Teria ele, sido baseado em algum empresário brasileiro? Por isso, a empresa estava oferecendo Cem Mil Dólares para a pessoa que desse qualquer informação que ajudasse a encontra-lo. Daisy queria ficar rica e esse era o caminho mais curto. Foi ela quem lembrou que Aza conhecia um dos filhos do bilionário. Ela e Davis frequentaram o mesmo acampamento quando crianças. Eles se falavam pouco, mas foi com ele que ela teve o seu momento mais íntimo…. na visão da Aza.

“Davis e eu não conversávamos muito, sequer nos olhávamos muito, mas que isso não importava, porque estávamos observando juntos o mesmo céu, o que, para mim, talvez seja mais íntimo do que contato visual. Qualquer um pode olhar para você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu.” – P.16

Picket sempre foi um pai ausente, mesmo quando estava lá. Ele foi embora, sem se despedir e ainda deu a herança para uma Tuatara. No fim o cara foge no meio da noite, sem falar nada com ninguém. E agora Davis precisa lidar com um pai fugiu, um irmão mais novo, que só precisa do pai por perto, os comentários dos “colegas” da escola e todos aqueles que só se aproximam dele pensando nos cem mil oferecidos por informações. Ele sabia que Aza e Daisy só tinham ido até ele pelo dinheiro. Mas, o relacionamento dos dois toma um rumo diferente, e ele precisa ter certeza. A solução? Ele mesmo dá os Cem Mil Dólares para Aza, com promessa de que ela desistirá da investigação. Se a partir daquele momento eles continuassem a se falar ele teria certeza.

Tuatara

“Tua (o bicho tinha nome) na verdade não era um lagarto, mas uma criatura geneticamente distinta que datava da Era Mesozoica, duzentos milhões de anos atrás, a época do dinossauros, e que por isso era considerado basicamente um fóssil vivo, e que um tuatara pode chegar a cento e cinquenta anos, e que o plural de tuatara é tuatara, e que eles são a única espécie ainda viva da ordem Rhynchocephalia, e que correm risco de extinção na Nova Zelândia, de onde são nativos, e que sua tese de doutorado tinha sido sobre as taxas de evolução molecular dos tuatara, e continuou falando e falando até aporta do domo se abrir de novo.” – P. 41

John Green sempre escreve livros que de alguma forma nos marcam. Tartarugas não é diferente. E talvez por ele ser um livro tão pessoal para o autor, tem um gostinho diferente. A obra não é um thriller investigativo, com certeza não é um romance e por favor não espere finais felizes. Tartarugas até lá embaixo é um drama filosofal, onde Aza está na constante busca do Eu. Sim, esse é um momento que todo adolescente e muitos adultos passam. A gente só quer se entender, se conhecer, saber quem nós somos e o nosso papel nomundo. Mas imagina descobrir isso enquanto na sua mente te boicota. Te puxa para baixo, mostrando o seu pior.

“Você está sem seus sentidos e sem forma…Sua sensação é de que você só consegue descrever o que é se identifica o que não é, e você está flutuando sem rumo num corpo completamente fora do seu controle. Não é você quem decide de quem gosta, ou onde mora, a que horas come, do que tem medo. Você está presa e pronto, totalmente sozinha nessa escuridão.”  – P. 245

Por ele ter a doença e ter maestria em literatura, o autor descreveu melhor do que muito médico, o que realmente sofre uma pessoa com TOC. Não é manias, não é apenas uma vontade incontrolável de manter tudo certinho ou limpinho… é muito mais profundo e triste do que isso. Se o livro vai fazer o mesmo sucesso que A Culpa é das Estrelas… eu acho difícil. Eu não creio que todos irão se identificar com Aza e com certeza vai ter muita gente incomodada com os pensamentos filosóficos e metáforas, mesmo que o livro tenha uma leitura fácil, gostosa, que vai levar muita gente a ler em um dia. Só sei que pra mim, a experiência de ler Tartarugas foi uma torrente de emoções.  Me senti afundando com ela. Me questionei com ela. E no final eu não conseguia definir em palavras o que foi esse livro, só pude sentir. A única coisa que faltou foram as Fanfics da Daisy. Acho digno o Green publica-las <3.

Tartarugas até lá embaixo – John Green

Editora: Intrínseca
Edição: 1ª (12 de outubro de 2017)
Páginas: 256 p.
Dimensões: 20,6 x 13,4 cm
ISBN-10: 8551002007
ISBN-13: 978-8551002001
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