Resenha: Penumbra – André Vianco

Penumbra é lugar feito para esquecer, mas vai ser difícil deixar Lana e Babá Osso Duro para trás, depois desta aventura.

Lana é uma criança com mais ou menos seis ou sete anos… naquela faze das perguntas e birras. Curiosa, arteira, determinada, mas foi embora cedo de mais. Lana morreu. Não, isso não é um spoiler. É assim que começa nossa aventura. Com a dolorosa constatação de que um ser tão jovem se foi e com um alerta de André Vianco, no melhor estilo Lemony Sniket:

“Esta é uma história sombria e melancólica. Ninguém dentro dessas páginas teve um final feliz – não um final terreno, ao menos.” – P.1

Lana foi morreu e foi parar na Penumbra, um lugar frio onde o sol e a lua nunca nascem. “Um lugar feito para esquecer”, é o que repetem para ela a todo o momento. Lá ela conhece Jorge, um menino franzino e assustado e uma bebezinha que mal teve tempo de viver. Eles morreram e devem esquecer. Mas Lana é diferente. É teimosa, muito determinada. Tem mais energia que os outros, lembra coisas que não deveria e não quer esquecer. Ela fez uma promessa antes de partir, que foi justamente nunca esquecer a sua mamãezinha. Ela não quer esquecer o seu rosto. E não quer partir com a luz, enquanto não lembrar.

Queria era voltar para casa. Daria um jeito. Ela sempre consegui dar um jeito nas coisas e ter o que queria. Acharia uma porta, um passagem que a ligasse com sua mãe. Faria birra e bateria o pé até conseguir achar o caminho de casa.” P.10

Lana também conhece Rosa e Letão, responsáveis por receber as crianças na Penumbra e a Babá

Penumbra
André Vianco – Autor

Osso Duro, aquela que a protegerá durante sua estadia na Penumbra e a levará para o outro lado. A princípio você pode achar que ela é má. Afinal é basicamente uma mulher seca, uma caveira, num vestido de couro, armada com um revólver de cano longo, um facão e um chicote. Mas a verdade é que ela é tão determinada e teimosa quanto Lana e só quer cumprir sua missão que é levar as crianças para o outro lado. Esse é o seu objetivo até encontrar a criança certa. A criança que irá liberta-la. Por isso é dura com as crianças para que elas obedeçam. Mas ela não é tão dura quanto gosta de parecer. Ela ama muito todas as crianças que já passaram por seus cuidados.

“Eu odeio quando esta hora chega. Odeio. Pensam que sou má, pensam que eu não tenho coração. Mas não há o que fazer. Mas nada. Mantê-lo aqui, nesse estado, só vai faê-lo sofrer mais ainda.” – P. 122

Lana - PenumbraAlgumas crianças ficam na penumbra e se tornam criaturas assustadoras. Em forma de dragão ou, muitas vezes, em forma de lobo, os atravessadores são alguns dos seres dos quais a Baba tem que defender Lana e Jorge. Assim como a pequena eles não quiseram esquecer, quiseram voltar. Cheios de rancor e raiva eles assombram os entes queridos para que eles nunca o esqueçam. Porém, para atravessar para o lado dos vivos eles precisam sugar a energia das crianças recém chegadas à Penumbra. A teimosia e energia de Lana chamam a atenção dos atravessadores e torna mais difícil o trabalho da Baba. Ela, precisa atravessar a Penumbra com as crianças, até o lugar mais alto e entrega-los para a luz. Mas a constante lembrança da promessa que fez a mãe, não deixa Lana esquecer.

“-Pare de lembrar. Você precisa esquecer para ir em frente. Quer fazer todos sofrerem aqui? Quer que eles peguem o seu amigo? É exatamente isso que vai acontecer. Eles vão engolir primeiro o seu amigo, que é mais fraco, e depois você.” – P. 103

A teimosia de Lana é de fato sua maior característica. Ela é tão, tão teimosa, que as vezes chega a ser chata. Por várias vezes ela enfrenta medos ou limites para não esquecer e não quebrar a sua principal promessa. E é aí que eu me lembrava que ela é apenas uma criança (arteira), que morreu cedo de mais e tem saudades de sua mãe. E se Lana é uma criança teimosa, a Baba é uma velha turrona que não aceita ajuda e não gosta quando o papel é invertido.

“A menina tinha uma aura destacada pela lua rala do céu que chegava ao topo da duna. Estava Osso Duro - Penumbraali, com a mão estendida, para ajudá-la, para salvá-la do abismo, invertendo os papéis, confiante frente ao perigo e desafiando o próprio medo. Era ela, Osso Duro, quem salvava as crianças. Não podia deixá-las sozinhas. Aquela luta ingrata para mantê-las bem era sempre assim, como ter areia sob os pés, esparramando-se e escorrendo.

Osso Duro fincou os dedos na areia e escalou, com esforço, ignorando a mão de Lana. A menina não tinha que salvar ninguém. Era só uma criança morta. Uma criança morta e especial.” – P. 132

Sou fã da escrita do André Vianco. Ele um dos meus autores nacionais prediletos da vida (que quase tive um faniquito quando conheci na Bienal de 2017). Já li quase todos os seus livros (tenho que resolver isso logo), meu predileto é Os Sete e gosto muito, muito da construção de mundo de Bento. Dito isso, preciso dizer que ele me surpreendeu mais uma vez. Enquanto eu estava incomodada com as malcriações da Lana, André me mostrou que tudo tem um motivo. Enquanto lia as páginas de Penumbra eu tentava conectar as peças do quebra-cabeças: “Como Lana Morreu?”, “Porque ela não esquece da promessa?”, “Ela está a ali para salvar Osso Duro?”…. Por mais que eu tenha acertado algumas das respostas dessas perguntas, não chegava nem perto do que foi o final desse livro.

Penumbra a princípio pode parecer cruel, triste, mas no final fala sobre família e amor que a gente leva por outras vidas. Sobre como as vezes é importante “esquecer” algumas coisas para seguir em frente e claro sobre ser perseverante quando se trata daqueles que você ama. É um suspense, thriller, com um pouco de drama, mas acima de tudo é uma história linda, emocionante, que vai te dar raiva algumas vezes, mas também vai te arrancar lágrimas. E a Osso Duro é uma fofa <3 a prova de que aparência não é tudo.

Penumbra – André Vianco

Editora: LeYa
Edição: 1ª (31 de outubro de 2017)
Capa: Leandro Dittz
Páginas: 256 p.
Dimensões: 22,6 x 15,4 cm
ISBN-10: 8544106153
ISBN-13: 978-8544106150
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