Resenha: A Espiã – Paulo Coelho

Dançarina Exótica, mulher independente, cortesã e Espiã. São muitos os mitos em torno de Mata Hari, a mulher que sabia (e queria) demais.

A Espiã de Paulo Coelho, conta a história de Mata Hari, nome artístico de Margaretha Zelle. Uma mulher a frente do seu e talvez do nosso tempo. Mata nasceu em 1876 numa remota cidade da Holanda. Era considerada a mais bela por suas amigas, mesmo que elas não admitissem isso. Seu pai era empresario do ramo de Petróleo, mas não conseguiu manter o lucro. A situação piorou, aos 15 anos, quando sua mãe faleceu, mas não sem antes deixar um presente.

As flores nos ensinam que nada é permanente; nem a beleza, nem o fato de murcharem, porque darão novas sementes. Lembre-se disso quando sentir alegria, dor ou tristeza. Tudo passa, envelhece, morre e renasce.” – P. 31

Mata então foi para um colégio interno e chegou ao primeiro inferno. A Espiã - Mata HariAos dezesseis anos foi violentada. O trauma foi grande, mas de alguma forma superado. A cidade do internato era pequena, não muito melhor daquela que tinha nascido, sem muito futuro, Mata viu no casamento sua salvação que seu tornou segundo inferno. Seu marido era alcoólatra e violento. Margaretha, jovem, com uma filha, viveu por um longo tempo num relacionamento abusivo. Depois de ver a infelicidade em uma outra mulher que só via sentido na vida através do amor e do casamento, decidiu seguir sua vida e seus sonhos. Aprendeu sobre dança em Java, deixou sua família e foi Paris.

“A roupa era feita de véus sobrepostos uns aos outros. Eu retirei o primeiro véu e ninguém pareceu dar muita importância. Mas, quando retirei o segundo e o terceiro, as pessoas começaram a se entreolhar. No quinto véu, a platéia estava totalmente concentrada no que eu fazia, pouco se importando com a dança, mas querendo saber aonde eu iria chegar. (…) Sabia que se estivesse em meu país seria imediatamente enviada à prisão, mas a França era um exemplo de igualdade e liberdade.” – P. 64

Foi lá que Mata se tornou a famosa dançarina exótica. Fez fama, dinheiro, ganhou até seu próprio cartão postal, mas nada disso foi o suficiente. Cansada das críticas que recebia da imprensa pela idade e flexibilidade que já não eram as mesmas e de suas possíveis substitutas, ela abandonou a carreira para dar mais um passo em sua independência. A dançarina se tornou Cortesã. Amante de ricos, políticos e homens poderosos da sociedade. Contanto que sustentassem seus luxos, ela não se importava se era francês, italiano, holandês ou Alemão. Ela dava a eles o que queria ou os fazia companhia e mesmo sem que ela pedisse, contavam seus segredos.

A Espiã - Mata Hari

A obra é dividida em três partes. A primeira fala sobre a perda da mãe, sobre o estupro, casamento abusivo,a dança e a transformação de Margaretha em Mata. Na segunda parte a dançarina vai para Paris, alcança fama e dinheiro até desistir da carreira para virar cortesã e a proposta para voltar a dançar em outro país. Já a terceira é a resposta do advogado a carta de Mata, com uma visão um pouco diferente dos fatos apresentados por ela sobre suas acusações.

Entendo que você quisesse criar histórias fantásticas a respeito de si mesma, seja por insegurança ou por seu desejo quase visível de ser amada a qualquer preço. Entendo que, para manipular tantos homens que eram peritos na arte de manipular os outros, era necessário um pouco de fantasia. É imperdoável, mas é a realidade; e foi isso que a levou aonde se encontra agora.” P. 145

Muitos mitos envolvem a vida de Mata, que alias, já foi até interpretada por Greta Garbo no cinema. Em uma rápida pesquisa na internet encontramos várias versões desta mesma história. Paulo Coelho, com base em fatos registrados na imprensa da época, documentos e cartas e em pouco de sua imaginação reconstrói essa história de forma fantástica. Através de uma carta que Mata Hari manda para seu advogado (e da resposta dele), o autor reconstrói a vida da dançarina de forma a própria nos conte a sua versão da história.

A Espiã - Mata Hari

Embora todos os fatos deste.livro tenham acontecido, fui obrigado a criar alguns diálogos, fundir certas cenas, alterar a ordem de uns poucos eventos e eliminar tudo aquilo que julguei não ser relevante para a narrativa. Este livro não tem a menor intenção de ser uma biografia de Margaretha Zelle.” – Paulo Coelho, P. 179

Em um ano que tivemos tantas protagonistas femininas (Mulher Maravilha) ou histórias sobre como o empoderamento feminino pode incomodar (The Handmaids) eu não poderia terminar o ano com uma história melhor. Mata Hari pode ter sim inventado muita coisa ao seu respeito, Paulo Coelho pode ter floreado algumas coisas, mas é fato que ela foi forte o suficiente para correr atrás dos seus sonhos e ser independente, numa época em que as mulheres não tinham direito algum. E foi justamente isso que fez com que toda uma nação (de mulheres traídas e homens com medo) a condenasse. Seu crime não foi ser espiã, mas sim ser uma mulher forte, corajosa e fora dos padrões. Nenhuma das influentes amizades que manteve, ficou ao seu lado quando foi acusada de espionagem ou quando foi fuzilada aos 41 anos. Mata, virou bode expiatório de um governo que precisava distrair o povo das atrocidades que aconteciam em batalha.

Não importa se esta é ou não a verdadeira história de Mata Hari. O que conta é a forma brilhante que Paulo Coelho escolheu conta-la. Uma leitura para mulheres de todas as idades e para todos aqueles que buscam inspiração para ser aquilo que realmente são sem amarras. Tinha muito tempo que eu não lia Paulo Coelho e A Espiã, me fez perguntar porque de ter demorado tanto.

A Espiã – Paulo Coelho

A EspiãEditora: Paralela
Edição: 12 de setembro de 2016
Páginas: 120 p.
Dimensões: 20,8 x 14,2 cm
ISBN-10: 8584390375
ISBN-13: 978-8584390373
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