Resenha: Noites Negras de Natal – Melissa de Sá & Karen Alvares

Melissa de Sá e Karen Alvares e quatro contos de arrepiar.

Noites Negras de Natal e Outras Histórias é um livro com quatro contos de Melissa de Sá e Karen Alvares. As duas escritoras juntaram suas ideias nessa obra sangrenta que trás duas histórias com a temática Natal e outras duas livres, mas tão boas quanto.

A primeira história foi escrita por Karen. O Último Panetone de Natal mexe com nossa emoção e com o nosso estomago. O conto é sobre um casal que viaja sozinho e sem rumo. A intensão era melhorar o clima entre os dois. Rafaela não é mais a mesma desde que perdeu os pais em um acidente de carro. E Pablo se mantém firme e com muita paciência ao lado da namorada, acreditando que uma hora tudo vai voltar a ser como antes. Mas não é tão fácil. Esse é o primeiro Natal que ela passa sem os pais…. e bem na noite da véspera, Pablo e Rafaela estão passando pela mesma estrada onde eles morreram. A fome e o cansaço batem e eles resolvem parar numa pousada de bera de estrada, onde são atendidos por uma senhorinha, que vive com seu neto estranho. Eles ficam com um quarto e são convidados para jantar, ou no caso ceiar. Tudo ia muito bem, até Pablo recusar comer o Chocotone.

“Não que ele fosse de jogar comida fora, nem que não gostasse de panetone. O problema era essa insistência que ele comesse. Pablo até fazia muitas coisas quando lhe pediam. Agora quando mandavam era outro departamento. E ele não comeria aquela porcaria só porque uma velha e sua namorada o mandaram fazê-lo.” Pos. 198  

O Último Panetone de Natal é suspense no level máximo do início ao fim. A história me lembrou um pouco aos filmes clássicos de terror dos anos 80, com casais, casas no meio do nada e velhas e crianças assustadoras. O fato é que, por segurança, eu nunca mais eu recuso panetone ou chocotone. Melhor garantir.


Noites Negras
Melissa de Sá, autora

O Segundo conto, vem com a assinatura de Melissa de Sá. Lembranças Vermelhas é sobre uma família desunida. Julian vai passar o natal com seu irmão André, no antigo sítio da família. André agora está casado com uma escocesa chamada Marion. E como o próprio Julian diz, o relacionamento ainda tinha brinde. Marion tem dois filhos, que não eram de André. Julian achava Marion estranha, mas Nicholas e Maureen ganhavam essa batalha. “Talvez porque eram crianças estrangeiras num lugar que nada tinha a ver com eles“. André, Marion, Julian e até as crianças estavam se esforçando para que tudo ocorresse bem nesta noite em família. Comeram Chili cheio de pimenta no calor mineiro, André separou um jogos de tabuleiro e as crianças até foram brincar com a Rena.

“A tal rena era uma réplica em tamanho natural de uma rena natalina, daquelas de Papai Noel. Mas essa não era em nada parecida com aquelas renas fofas com que se decoram árvores de Natal. Era vermelha e tinha galhadas de um dourado descascados. Deus olhos de bolinha preta pareciam muito maiores do que deveriam ser e suas pernas arqueadas de plástico tinham ângulos um tanto sinistros.” – Pos. 328

Tudo ia relativamente bem até André precisar buscar a irmã deles, Ana, que ficou presa na estrada por causa de uma chuva. Julian então, ficou sozinho na casa com as crianças, a rena e suas lembranças. A casa tinham muitas lembranças. Lembranças de um pai que se foi cedo de mais. Lembranças de um caseiro forte que cuidava do sítio como ninguém. Lembranças da família que um dia foram e que poderiam ter sido.

Lembranças Vermelhas também tem um “Q” de anos 80, mais por se passar em Minas Gerais, num sítio abandonado, mas também pelo clima de suspense. Ao contrário do primeiro conto, aqui o clima de tensão vai aumentando aos poucos. Levando o leitor a muitos sustos, junto com os personagens. Confesso que queria um pouco mais sobre o caseiro e principalmente sobre a rena. Ela ainda está povoando um pouco os meus sonhos mais assustadores…

Noites Negras
Karen Alvares, autora.

Os dois outros contos não contam com a temática de Natal, mas seguem no clima de suspense e sangue. Setor B12 da Karen conta a história de Beto, um Pedreiro que depois de meses sem trabalho consegue emprego numa obra atrasada e assombrada. Todos os dias algum pedreiro sofre um acidente fatal, atrasando mais ainda a obra. A resposta da responsável, a Silva, é de que tudo está dentro dos conformes, a culpa não é dela e que ela é muito honesta. E o único que parece achar graça ou sentir prazer nisso é um velho, que foi contratado no mesmo dia que Beto. Foi ele quem alertou que a construção estava assombrada. Beto até pensou em desistir, mas como ele precisava do emprego ficou, para já no primeiro dia ver um operário transformar os próprios pés em carne moída e não resistir ao ferimento. Como os acidentes não param de acontecer, Beto e dois de seus colegas de trabalho resolvem investigar a obra depois do horário de trabalho, quando supostamente ninguém deveria estar lá.

“Cruzaram os galpões e maquinário paralisados na escuridão em silêncio, sem trocarem palavra. Quando chegaram perto do B12, Nico soltou um grito estrangulado e se escondeu debaixo de um trator; pensando que fosse alguém. Beto e caçamba se esconderam também, por vários minutos, tentando ver alguma coisa, mas não viam nada. Nico escondia a cabeça entre os braços, tremendo de pavor.” – Pos. 801

Karen mais uma vez arrasa num conto sobre fantasmas e as possíveis influência deles na vida dos vivos. Mesmo numa história assustadora, a autora consegue abordar temas mais sérios e que merecem discussão como racismo, descriminação e honestidade. Setor B12 é uma história para ler, se assustar e pensar.


E aí chegamos ao último conto: A Morte do Cisne. Odette, junto com os outros cisnes do lago, se transforma em humana durante algumas horas da noite. Ela se apaixona pelo príncipe do castelo, Siegfried. Ele e seu amor poderiam quebrar o encanto, mas ele confunde com outra e Odette fica destruída. Ela e seu bando ainda precisam lidar com Rothbart, um homem cruel que se alimenta do sangue dos cisnes e parece ter uma fixação por Odette. Ele a persegue naquela noite, mas a Cisne teve seu coração partido e está disposta a acabar com tudo.

“Não consigo sustentar o olhar dos outros cisnes. Seremos sempre amaldiçoadas. Quando a lua baixar, quando o sol surgir, seremos para sempre cisnes. Para sempre seres esgueirando pelo lago, aos poucos esquecendo quem somos, o que fomos, o que gostaríamos de ser. A cada noite nos tornando parte da paisagem, até sumirmos no horizonte um dia, alheias do coração que um dia bateu em nosso peito”. – Pos. 1024

Em A Morte do Cisne, Melissa de Sá arrasa no estilo do texto, trazendo toda a delicadeza, beleza e fluidez de um cisne e ao mesmo tempo violência, crueldade e sangue. O clima é de conto de fadas, quase uma lenda, que eu daria tudo para ler uma história completa, viu dona Melissa.


Eu já conhecia Melissa e Karen e já estava curiosa por esse trabalho das duas a um tempo. Aproveitei o final do ano e o clima de natal para fazer esta resenha e elas não me decepcionaram. Gosto muito do estilo das duas. Aqui e sempre elas desenvolvem a história aos poucos, nos levando exatamente onde elas querem. E eu vou de olhos fechados.

Noites Negras de Natal – Melissa de Sá e Karen Alvares

Editora: Obra Independente
Formato: eBook
Tamanho do arquivo: 288 KB
Páginas: 73 p.
ASIN: B00ASG0B50
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