Resenha: Confissões do Crematório – Caitlin Doughty

Muito se fala do lado espiritual da morte. Fantasmas. Pós-morte. Céu. Inferno…. Mas e a parte prática? Já pensou o que quer que façam com seu corpo quando você morrer? Não gosta muito de pensar sobre o assunto? Acho que você precisa ler Confissões do Crematório.

Caitlin Doughty é agente funerária, escritora , youtuber e sempre teve uma relação intensa e complicada com a morte. Quando pequena viu uma menina de 8 anos cair de uma altura de dez metros e isso bastou para que ela se transformasse em uma pessoa “funcionalmente mórbida”. Entender que o destino de todos era a morte não foi fácil. “Ficava deitada durante horas esperando os faróis do carro da minha mãe aparecerem em frente de casa, convencida de que ela estava caída, ferida e ensanguentada no acostamento da estrada, com pedacinhos de vidro estilhaçados presos nas pontas dos cílios.” (p.22). Ela teve que tratar alguns transtornos, esconder seus “desejos” e só na faculdade resolveu abraçar de vez “as trevas”. Desde então Caitlin estuda os rituais, mitologias e principalmente porque é tão difícil falar sobre a morte. Em Confissões do Crematório ela conta a sua primeira experiência prática com a morte, como operadora de fornos crematórios e com a indústria funerária. Eu já adianto que ler esse livro foi uma experiência enriquecedora.

A sinopse oficial do livro – e até na contra capa – fala muito de humor, ou “memórias hilariantes”. Eu não sou muito boa com humor. Mas na minha visão, Caitlin não trata do assunto com humor, mas sim com naturalidade. Não que eu não tenha dado algumas gargalhadas… dei (principalmente ela e Mike tentam “colocar delicadamente” um homem obeso num caixão que não cabe). Mas Confissões é tão rico culturalmente que fica difícil da atenção apenas às situações engraçadas. Sabia que existem lamentadores profissionais? Na China é uma normal contratar pessoas para chorar desesperadamente no enterro. Se ajoelham no chão e choram copiosamente, levando a todos ao mesmo frenesi. No Brasil os Wari (tribo indígena) comiam a carne torrada do morto. A honra (sim, era considerada uma honra entre eles) não era uma coisa muito fácil de fazer, mas eles iam até o fim. Caitlin vai de tradições medievais à monges no Tibet, contando rituais da morte pelo mundo.

“Cada cultura tem rituais de morte com poderes de chocar os não iniciados nela e desafiar nossa teia de significados pessoal, desde a carne torrada da tribo Wari ao monge tibetano destruído pelos bicos dos abutres até o longo trocarte prateado perfurando os intestinos de Cliff.” – (P. 94)

Confissões do Crematório vai além da história. Caitlin conta em detalhes o processo prático da cremação, do embalsamento, do enterro e faz duras críticas aos processos, ao mercado funerário e a forma com que tratamos a situação hoje. Nada mais natural se você parar um pouco para pensar, ou ler, como acontece cada um deles. Se a intensão é deixar os corpos descansarem uma última vez, temos feito isso errado. Muito errado. Se no período medieval os corpos eram exibidos honradamente, o cristianismo, a medicina entre outras evoluções, nos fizeram escondê-los ou simplesmente maquiar a morte. Vivemos numa cultura de culto ao belo, o que torna cada vez mais difícil abraçar a morte como se deve. Sim, encarar a morte (sua ou a de outra pessoa) provavelmente é a coisa mais difícil que um ser humano pode enfrentar na vida. Mas talvez se tratássemos isso com a mesma naturalidade que a escritora trata nessas páginas, a coisa ficaria um pouco mais fácil.

Afinal, “sucesso” significava usar um monte de Confissões do Crematórioplástico e fios para apresentar o cadáver idealizado de Elena Ionescu. “Sucesso” significava cadáveres sendo retirados das famílias por profissionais cujo emprego não era ritual, mas pura ofuscação para esconder a verdade do que os corpos são e o que os corpos fazem. Para mim, a sra. Greyhound exibiu a verdade do assunto de forma escancarada: a morte devia ser conhecida. Conhecida como um árduo processo mental, físico e emocional, respeitada e temida pelo que é.” (P. 131)

Quando eu comprei esse livro pedi para entregar na casa da minha mãe. Dona Vanda, pessoa extremamente espiritualizada, não gostou quando leu na contra capa: “Somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres“. Minha mãe logo respondeu, “Tá errado… nós somos espíritos de luz“. Eu concordo com minha mãe, mas agora entendo o que Caitlin quis dizer. Nós somo seres de luz, mas vivemos num corpo. Um corpo físico fadado a morrer. E quando a luz for embora pra outro lugar, é o corpo que fica. E por mais duro que isso possa parecer, é importante que em algum momento da sua vida, você pare para pensar no que raios quer que façam com o seu corpo. Mas antes que isso aconteça, aconselho a ler Confissões do Crematório, porque pode ser interessante saber o que vão fazer com ele quando você não estiver mais aqui.

Nunca é cedo de mais para começar a pensar na própria morte e na morte das pessoas que você ama. Não quero dizer pensar na morte em ciclos obsessivos, com medo do seu marido ter sofrido um acidente horrível de carro ou do seu avião pegar fogo e despencar do céu. Mas uma interação racional que termina com você percebendo que vai sobreviver ao pior, seja lá qual for o pior.” – (P. 232)

Confissões do Crematório

Não dá para terminar essa resenha sem falar do trabalho editorial da Darkside. Além das cores sensacionais que vocês estão vendo nas fotos (que não fazem jus..) a capa é em 3d com um material camurça muito gostoso de tocar. As folhas internas são de excelente qualidade, grossa e delicada ao toque, com a parte externa tingida de vermelho, o que dá uma diferença sensacional ao olhar o livro fechado. Por dentro, lindos desenhos do corpo humano, fitinha preta – <3 – e a carta da morte. Um trabalho que dá gosto de olhar.

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Confissões do Crematório – Caitlin Dougthy

Editora: Darkside
Edição: 1ª (25 de julho de 2016)
Formato: Capa dura
Páginas: 256
Dimensões do produto: 21,4 x 14,4 x 2,2 cm
Peso do produto: 481 g
ISBN-10: 8594540000
ISBN-13: 978-8594540003
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