Resenha: Febre de Enxofre – Bruno Ribeiro

Quão fundo um homem pode ir ao fundo do poço? E se ele contar com a ajuda de um devorador? Febre de Enxofre de Bruno Ribeiro é a intensa, trágica e insana história de um poeta de João Pessoa.

Yuri Quirino é poeta. Ficou famoso por escrever Poetas não morrem com tiro de doze e só. Agora sua vida está sem rumo. Não escreve. Vive da ajuda financeira do pai. E Luciana, seu amor, está indo embora, para fazer um curso no Rio de Janeiro. E é no aeroporto, logo depois de se despedir, que ele aparece. Manuel di Paula, um homem estranho, com uma proposta estranha. Ele se mostra muito interessado no trabalho de Yuri e quer que ele escreva sua biografia. Mas para produzi-la ele precisa ir para Buenos Aires, para a cidade natal de Manuel. Yuri recusa. E aí começa a sua loucura.

Quero te propor um negócio. Envolve seu ofício, arte, vida. Envolve sair deste templo abafado de passado, uma mudança, novos ares, Buenos Aires, cidade e pessoas distintas. Por que você? Porque há anos não leio algo com tanta carne. Você escreve como se matasse. Há víscera aqui, pinga de cada página, alimentei-me do seu livro.P.21

Yuri é um poeta e como tal sofre, sofre e sofre muito. Mesmo falando com Luciana pelas redes sociais, acaba sendo consumido pela saudade, pela angústia e depressão. Bebe. Vive em puteiros. Fala o que pensa (e o que não deve), revive o passado com Malena, sua antiga namorada, ensina poesia para travecos e enlouquece. Enquanto isso, Manuel não desistiu. Continua a insistir na proposta e a assistir e provocar ainda mais a decadência do Poeta. Yuri pensa em suicídio, mesmo sem querer morrer. Se joga do terceiro andar e percebe que não há o que fazer. Ele está chegando ao fundo do poço. Sem dinheiro, sem futuro. Com Malena grávida. Perdendo a sanidade e Luciana. Ele é levado a crer que seu único destino é Buenos Aires e a biografia de Manuel di Paula. Ele deixa tudo para trás e vai.

Olho para os lados: vejo uma mansão pichada e com janelas quebradas entre Bolívar e a Avenida San Juan. Manuel di Paula. Calle Bolívar, 867. Toca música eletrônica dentro do lugar. O taxista acelera e diz suerte. O papel com endereço de Manuel desvanece. Minhas lembranças vão embora como o vento, se vão. A mansão se move. Uma sombra se aproxima: minha sombra. O mundo deixa de respirar, com exceção dele, Manuel di Paula.P.90

Yuri esquece. Esquece nomes, família amigos, esquece de si. Literalmente. Ele mergulha na loucura e vive, respira e se alimenta da biografia da criatura. Nesse ponto o livro muda. Não acompanhamos apenas a história de Yuri. Mas também a de Manoel na biografia escrita por Yuri. Manuel é uma estranha criatura que se alimenta de sangue de inocentes. Um DJ cult, produtor musical, que vive numa mansão dominada por mendigos e drogados. Foi uma criança solitária, com uma mãe protetora e pai violento. Rodeado de perversão. O pai transava com as sete empregadas, uma em cada dia da semana. Quando o menino fez 11 anos o fez escolher uma delas para perder a virgindade. Acabou perdendo com a mãe e se apaixonando por quinta-feira – que acabou decapitada.

O plano da mãe di Paula era complexo: assassinar o marido, libertar as seis empregadas e escravas sexuai – ou mata-las, ela estava em dúvida – e fugir com o filho para João Pessoa, no Brasil, onde morava o irmão.” P.150

A história de Manoel e Yuri se fundem. Coincidências que o poeta é incapaz de lembrar são mostradas. Amores chamados Malena e Luciana. Mesmas expressões. Mesmas falas. Mesma proposta. A insanidade cresce e somos incapazes, assim como o poeta, de diferenciar o que é real e o que é loucura e quando menos esperamos somos devorados por Manoel junto com Yuri e vamos parar em seu estomago junto com outros 43 poetas, entre eles o próprio Bruno Ribeiro.

Febre de Enxofre - Bruno Ribeiro
Febre de Enxofre – P.191

A relação de Manoel e Yuri me lembrou um pouco a de Drácula (de Bran Stoker), com Thomas, mas o autor criou aqui uma nova criatura, muito mais intensa. O engolidor de poetas envolve a vítima no seu mundo cheio de loucuras e o deixa sem saída. E nesse caso a “Mina” não sabe nem que precisa resgatar seu amado. E a história se torna ainda mais peculiar quando Bruno Ribeiro – o autor – se torna um personagem. O primeiro poeta devorado. Aquele que cria toda a insanidade que envolve Manuel di Paula e sua biografia, e agora se sente responsável pelos 43 poetas que vivem com ele na eternidade do estomago da criatura.

Febre de Enxofre é o tipo de livro que vai fazer a sua cabeça explodir. Quando comecei a ler, não sabia o vinha pela frente. Mesmo sabendo do que se tratava – falei dele aqui – eu não estava preparada. É uma obra intensa e insana cheia de referências de romantismo, vampirismo e poesia. Você é literalmente sugado pela escrita. E que escrita. Bruno usa uma linguagem corrida, sem parágrafos, sem sinalização para diferenciar diálogos, com frases repetidas e curtas. De cara pode até assustar, pode ser confuso, mas a mágica da literatura acontece na frente de nossos olhos.

Bruno Ribeiro - Febre de Enxofre
Bruno Ribeiro – Autor

Eu queria criar um ritmo que fizesse jus ao título. Uma febre demoníaca com parágrafos longos e pouquíssimas pausas para respiração…Eu queria uma linguagem frenética, febril, que pudesse ser experimental, mas não hermética. Acessível de certa forma também.” – Bruno Ribeiro

 

 

Recomendo Febre de Enxofre para leitores que gostam de suspense e histórias surpreendentes que jorram cultura e referências clássicas. Um orgulho para a literatura brasileira. Bruno Ribeiro está de parabéns.

Febre de Enxofre – Bruno Ribeiro

Capa Febre de Enxofre

Editora: Penalux
Selo: Castiçal
Tamanho: 14x21cm
Páginas:  274
Preço:  R$ 45,00
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